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PEQUIM e BRASÍLIA — Depois de comprar carne bovina brasileira em ritmo digno de quem descobriu uma promoção imperdível no açougue, a China decidiu avisar que a festa tem limite.
A partir desta quinta-feira, 1º de outubro de 2026, a carne bovina brasileira que ultrapassar a cota anual de 1,1 milhão de toneladas passará a enfrentar uma sobretaxa de 55%. Somada à tarifa regular de 12%, a conta chega a 67%.
A medida foi acionada automaticamente após o Brasil conseguir a proeza de esgotar a cota antes de o ano acabar. Afinal, aparentemente, até o comércio internacional possui aquele velho mecanismo conhecido no Brasil como: “acabou, irmão”.
E não adianta insistir.
A salvaguarda chinesa permanecerá em vigor até o fim de 2028, transformando cada tonelada excedente em uma espécie de churrasco diplomático: caro para quem compra e complicado para quem vende.
Brasília tentou salvar o churrasco
O governo brasileiro ainda tentou negociar uma solução de última hora. A ideia era aproveitar parte da cota que o Uruguai não havia utilizado, numa operação que, em resumo, seria algo parecido com:
“Já que sobrou espaço na churrasqueira do vizinho, podemos colocar alguns espetinhos nossos ali?”
A resposta de Pequim foi não.
E assim termina mais uma tentativa brasileira de resolver um problema internacional com criatividade administrativa.
O boi agora procura novos amigos
Com a porta chinesa parcialmente fechada para o excedente, frigoríficos brasileiros deverão procurar outros mercados para acomodar a produção.
O principal candidato é justamente o mercado americano.
Ou seja: o boi brasileiro, que até ontem estava fazendo carreira internacional rumo à China, agora terá de atualizar o currículo e mandar mensagem para Washington.
“Olá, EUA. Tenho experiência em exportação, aceito negociar e posso começar imediatamente.”
E a carne vai ficar barata no Brasil?
Calma.
Se alguém já estava comemorando a possibilidade de finalmente comprar picanha pelo preço de frango, pode guardar o espumante.
A redução das exportações para a China não significa automaticamente carne mais barata no supermercado brasileiro.
Um dos motivos é a própria composição da demanda chinesa. O país compra principalmente cortes dianteiros, enquanto boa parte do mercado brasileiro trabalha com outra dinâmica de consumo e valorização dos cortes.
Além disso, o boi gordo continua valorizado no mercado físico brasileiro, o que reduz a possibilidade de uma queda brusca dos preços simplesmente porque uma parte das exportações encontrou uma barreira tarifária.
Em outras palavras: o consumidor brasileiro pode até ouvir a notícia de que a China colocou 55% a mais na conta.
Mas isso não significa que o açougue vai responder:
“Excelente notícia! Hoje é picanha em promoção porque Pequim está de mau humor.”
A ironia da história
Durante anos, a expansão das exportações brasileiras foi celebrada como demonstração da força do agronegócio nacional.
Agora, o sucesso virou justamente o problema: o Brasil vendeu tanto para a China que bateu no teto da própria cota.
É a versão internacional do clássico dilema brasileiro:
“Deu tão certo que agora deu errado.”
A partir de outubro, portanto, o boi brasileiro continuará andando pelo mundo.
Só precisará tomar cuidado para não ultrapassar a faixa de pedestres diplomática.
E, principalmente, para não descobrir que existe uma coisa mais cara que a picanha:
a picanha com 55% de sobretaxa.
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