quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Jornada de 36 horas semanais: avanço social ou novo desafio para as pequenas empresas?

Redução da jornada de trabalho pode beneficiar milhões de trabalhadores, mas o impacto sobre custos, preços, empregos e competitividade dependerá da capacidade de cada setor de produzir mais em menos tempo.


A redução da jornada de trabalho de 44 para 36 horas semanais está no centro de um debate que envolve qualidade de vida, produtividade, geração de empregos e sustentabilidade das empresas. A PEC 221/2019, apresentada pelo deputado federal Reginaldo Lopes em dezembro de 2019, propõe essa mudança com entrada em vigor dez anos após a publicação da emenda constitucional.

A proposta parte de uma ideia atraente: permitir que os trabalhadores tenham mais tempo para a família, o descanso e a vida pessoal, sem necessariamente reduzir a remuneração. Seus defensores também apontam a possibilidade de estimular o consumo, melhorar a produtividade e criar novos postos de trabalho.


Mas existe uma pergunta que precisa ser enfrentada com o mesmo rigor: como uma pequena empresa poderá manter sua produção, seu atendimento e sua competitividade trabalhando menos horas, sem comprometer sua saúde financeira?

A resposta exige olhar para a realidade de quem emprega, paga salários, recolhe tributos e precisa manter o negócio funcionando todos os dias.

O impacto na prática: uma empresa com 20 funcionários

Imagine uma pequena empresa optante pelo Simples Nacional, com 20 empregados contratados pela CLT e salário bruto médio de R$ 2.000 por mês.

Nessas condições, a folha salarial bruta mensal é de R$ 40 mil, sem contar os demais custos trabalhistas e operacionais.

Com a redução de 44 para 36 horas semanais, cada funcionário trabalharia oito horas a menos por semana. Em uma equivalência mensal de cinco semanas, seriam 40 horas a menos por empregado, ou 800 horas mensais a menos para toda a equipe.

A redução da jornada representa aproximadamente 18,2% das horas semanais disponíveis.

Se a empresa precisar manter exatamente a mesma capacidade de trabalho, sem ganhos de produtividade, essas horas terão de ser compensadas por reorganização das atividades, contratação de pessoal ou outras mudanças operacionais.

Em termos matemáticos, a reposição integral das horas perdidas equivale a aproximadamente 4,44 empregados trabalhando 44 horas semanais. Na prática, a quantidade de contratações dependerá das escalas, das funções e da legislação aplicável.

Quanto isso pode custar?

Considerando um fator ilustrativo de 1,30 vez o salário bruto para estimar o custo total da mão de obra adicional, a reposição integral da capacidade perdida representaria aproximadamente:

  • R$ 11.556 por mês em custos adicionais estimados;

  • R$ 138.667 por ano, considerando doze meses.

Esse cálculo não é uma previsão contábil universal. É uma simulação simplificada, que não substitui o cálculo dos encargos, benefícios, provisões e particularidades tributárias de cada empresa.

O valor também não representa um aumento inevitável. Se a empresa conseguir manter sua produção com menos horas, o custo adicional poderá ser menor ou até inexistente.

É justamente nesse ponto que a discussão precisa avançar: a capacidade de adaptação não é igual em todos os setores.


Comércio: quem manterá a loja aberta?

No comércio, a principal dificuldade é garantir a cobertura dos horários de funcionamento.

Uma loja precisa de vendedores, caixas, estoquistas e supervisores disponíveis durante o expediente. Supermercados, farmácias e estabelecimentos que funcionam à noite ou nos fins de semana enfrentam desafios ainda maiores para organizar escalas.


Se a jornada individual diminuir, mas o horário de abertura permanecer igual, a empresa poderá precisar de mais trabalhadores para cobrir os postos.

As alternativas incluem reorganizar turnos, automatizar tarefas, adotar sistemas de autoatendimento e reduzir atividades improdutivas.

Há benefícios possíveis: trabalhadores menos fatigados podem prestar um atendimento melhor, e a redução do cansaço pode contribuir para diminuir erros e rotatividade.

Entretanto, se não houver ganhos de produtividade suficientes, a empresa poderá enfrentar aumento de custos, redução da margem de lucro ou pressão para elevar os preços.

Em um mercado competitivo, nem sempre será possível transferir toda essa despesa ao consumidor.

Indústria: produzir a mesma quantidade em menos tempo

Na indústria, o impacto depende de como a produção é organizada.

Uma fábrica com máquinas que precisam funcionar durante períodos determinados não consegue simplesmente reduzir a jornada de seus funcionários e presumir que o volume produzido permanecerá igual.

Se a linha de produção precisar operar pelo mesmo número de horas, será necessário reorganizar turnos, contratar trabalhadores adicionais ou investir em processos mais eficientes.


O custo pode ser particularmente relevante em pequenas indústrias que trabalham com margens estreitas e dependem de operações manuais.

Por outro lado, a mudança pode incentivar investimentos em automação, manutenção preventiva, treinamento e redução de desperdícios. Uma fábrica que consegue produzir mais por hora pode compensar parte ou toda a redução da jornada.

Existe, porém, uma diferença fundamental entre aumentar a produtividade e simplesmente acelerar o ritmo de trabalho. A primeira alternativa depende de melhorias reais nos processos; a segunda pode aumentar o desgaste físico, os erros e os riscos ocupacionais.

O desafio é elevar a eficiência sem transferir todo o custo da adaptação para os trabalhadores.

Escritórios: o setor com maior potencial de reorganização?

Escritórios administrativos, contábeis e profissionais podem encontrar mais oportunidades para absorver a redução da jornada, especialmente quando suas atividades são medidas por entregas e resultados.

Digitalização, automação de tarefas repetitivas, redução de reuniões improdutivas e integração de sistemas podem liberar tempo sem necessariamente diminuir a qualidade do serviço.

Imagine um escritório que gasta horas lançando informações manualmente, corrigindo erros ou repetindo tarefas que poderiam ser automatizadas. Nesse caso, a redução da jornada pode estimular uma reorganização que já seria economicamente interessante.

Mas nem todo escritório tem essa flexibilidade.

Centrais de atendimento, departamentos financeiros com prazos rígidos e equipes que precisam manter disponibilidade durante todo o expediente podem enfrentar dificuldades semelhantes às do comércio.


A possibilidade de adaptação dependerá, portanto, menos do nome do setor e mais da natureza das tarefas executadas.

Prestação de serviços: o custo depende do que o cliente compra

A prestação de serviços reúne atividades muito diferentes entre si.

Uma empresa de limpeza, manutenção ou assistência técnica pode vender horas de trabalho presencial. Se um contrato exigir determinada quantidade de horas nas instalações do cliente, reduzir a jornada dos empregados sem alterar as condições contratuais poderá exigir mão de obra adicional.

Já uma consultoria ou empresa de projetos pode ter mais liberdade para organizar o trabalho por entregas, desde que cumpra os prazos e preserve a qualidade.

A roteirização de equipes, a redução de deslocamentos desnecessários e a melhoria dos agendamentos também podem elevar a produtividade.

Por isso, generalizar os efeitos da redução da jornada sobre todo o setor de serviços seria um erro. A atividade que depende de presença contínua enfrenta uma realidade diferente daquela em que o cliente remunera um resultado.


Também é importante observar o enquadramento tributário. No Simples Nacional, a contribuição previdenciária patronal pode estar incluída no DAS em determinadas atividades, enquanto empresas enquadradas no Anexo IV recolhem essa contribuição fora do documento unificado, conforme as regras aplicáveis. Isso altera a composição do custo da mão de obra.

O ponto de equilíbrio: quanto a produtividade precisa aumentar?

A matemática ajuda a dimensionar o desafio.

Se um funcionário passar de 44 para 36 horas semanais e a empresa quiser manter o mesmo volume de produção, será necessário aumentar a produção por hora em aproximadamente 22,2%, caso não haja contratação adicional nem outra compensação de capacidade.

Isso não significa que toda empresa precise elevar sua produtividade exatamente nesse percentual em qualquer circunstância. O cálculo pressupõe que todas as horas atuais sejam produtivas e que a empresa queira manter a mesma quantidade de trabalho total com os mesmos empregados.

Na realidade, existem tarefas improdutivas, períodos ociosos, desperdícios, retrabalho e diferenças de eficiência. Empresas que eliminarem parte dessas perdas poderão compensar a redução sem atingir necessariamente esse ganho por meio de maior esforço individual.

Considere quatro possibilidades para a empresa hipotética de 20 funcionários:

Horas compensadas por produtividade ou reorganizaçãoCusto adicional mensal estimado
0%R$ 11.556
25%R$ 8.667
50%R$ 5.778
75%R$ 2.889
100%R$ 0

Os valores utilizam a mesma hipótese de custo adicional de 1,30 vez o salário bruto. São cenários ilustrativos, não previsões sobre o comportamento real das empresas.


A tabela mostra que a discussão não deve se limitar a defender ou rejeitar a redução da jornada. É necessário investigar quanto da capacidade perdida pode ser recuperado por eficiência e quanto exigirá mais mão de obra.

Quem ganha e quem pode perder?

Os trabalhadores

O principal benefício potencial é a ampliação do tempo livre sem redução do salário mensal. Isso pode melhorar a convivência familiar, permitir estudos, ampliar o descanso e contribuir para a saúde e o bem-estar.

Entretanto, esses benefícios podem ser comprometidos se a empresa responder à redução com metas excessivas, intensificação do ritmo de trabalho ou diminuição de outros benefícios.


Os empresários

O principal desafio é manter a mesma capacidade operacional sem comprometer a rentabilidade.

Empresas com processos flexíveis e oportunidades de automação podem encontrar soluções. Negócios que dependem de presença física contínua e têm pouca margem de lucro podem enfrentar uma adaptação mais difícil.


Os consumidores

Se os custos aumentarem e a produtividade não compensar a redução, parte da despesa poderá chegar aos preços.

O repasse dependerá da concorrência, da margem de lucro e da disposição dos consumidores para pagar mais. Em alguns mercados, a empresa poderá ter de absorver o aumento ou perder clientes.


O governo e a economia

A criação de empregos formais pode ampliar a arrecadação tributária e previdenciária. O aumento do tempo livre também pode estimular determinados tipos de consumo.

Por outro lado, se houver fechamento de empresas, informalidade ou redução de investimentos, parte desses ganhos poderá não se concretizar.

Não basta contar as vagas que eventualmente serão criadas. É necessário considerar também os empregos que podem deixar de existir e os negócios que não conseguirão se adaptar.


A transição de dez anos pode ajudar, mas não resolve tudo

A PEC 221/2019 prevê um prazo de dez anos para a entrada em vigor da mudança. Esse período poderia permitir que empresas investissem em tecnologia, treinamento, revisão de contratos e reorganização de processos.

Contudo, o texto apresentado não estabelece uma redução anual automática da jornada nem prevê compensação financeira específica para pequenas empresas.

O prazo pode facilitar o planejamento, mas não garante que todos os negócios terão recursos para investir, acesso a crédito ou condições para contratar trabalhadores adicionais.

A preparação também exigiria atenção às diferenças entre setores e ao enquadramento tributário de cada atividade.

O que deveria ser avaliado antes da mudança?

Uma política de redução da jornada precisa considerar não apenas o benefício social pretendido, mas também as condições econômicas necessárias para que esse benefício seja sustentável.

Entre os pontos essenciais estão:

  1. Impacto por setor: identificar quais atividades dependem de cobertura contínua e quais podem reorganizar suas entregas.

  2. Produtividade real: medir quanto a automação, a qualificação e a eliminação de desperdícios podem compensar a redução.

  3. Sobrevivência das pequenas empresas: avaliar os efeitos sobre margens de lucro, capital de giro, preços e investimentos.

  4. Emprego formal: estimar tanto as contratações potenciais quanto os riscos de demissões, informalidade e fechamento de negócios.

  5. Transição: avaliar se o prazo e os mecanismos de adaptação são suficientes para empresas de diferentes portes.

  6. Custos trabalhistas e tributários: considerar as diferenças entre atividades, regimes de contribuição e estruturas de remuneração.

Esses pontos não invalidam os benefícios potenciais da redução da jornada. Eles ajudam a distinguir uma intenção social legítima dos resultados econômicos que ainda precisam ser demonstrados.


Conclusão: menos horas de trabalho exigem mais eficiência — e planejamento

A redução da jornada de 44 para 36 horas semanais pode representar um avanço na qualidade de vida dos trabalhadores. Também pode incentivar empresas a modernizar processos e eliminar desperdícios.

Mas não existe uma resposta única para todos os negócios.

No comércio, o desafio é manter o atendimento. Na indústria, é preservar a produção. Nos escritórios, é eliminar ineficiências sem comprometer as entregas. Na prestação de serviços, é cumprir contratos com menos horas disponíveis.

Para uma pequena empresa com 20 empregados, a reposição integral das horas perdidas pode representar, na simulação apresentada, aproximadamente R$ 138,7 mil adicionais por ano. Esse valor pode cair significativamente se houver ganhos de produtividade, mas não deve ser ignorado no planejamento.

O debate precisa ir além da oposição entre trabalhadores e empresários. Uma mudança sustentável deve buscar melhores condições de trabalho sem tornar economicamente inviável a atividade que financia salários, investimentos e empregos.

A pergunta decisiva não é apenas se os brasileiros devem trabalhar menos horas. É como fazer essa mudança funcionar na prática, preservando a renda dos trabalhadores, a competitividade das empresas e a geração de empregos formais.

Nota de transparência: a análise financeira é uma simulação ilustrativa baseada na PEC 221/2019 e em hipóteses explícitas de salário, reposição de horas e custo de contratação. Os resultados reais dependem da atividade, do enquadramento tributário, das convenções coletivas, da estrutura de custos e da produtividade de cada empresa.



Produzido com auxílio de IA.

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