Em um prédio de dois andares em Medellín, Colômbia,
cientistas dedicam horas de trabalho à criação de milhões de mosquitos em
laboratórios. O processo inclui cuidados minuciosos, desde a fase de larva até
a fase adulta, garantindo a temperatura ideal e uma dieta rica, composta por
farinha de peixe, açúcar e até sangue.
Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, esses
mosquitos não representam uma ameaça para a população. Pelo contrário, são
essenciais para salvar vidas. Eles são liberados para cruzar com mosquitos
selvagens que carregam vírus perigosos, como o da dengue, do Zika, do
chikungunya e da febre amarela.
O diferencial desses mosquitos criados em laboratório é a
presença da bactéria Wolbachia, que impede a transmissão dessas doenças
aos seres humanos. À medida que esses mosquitos se reproduzem com os selvagens,
a bactéria se espalha, reduzindo a circulação dos vírus e protegendo milhões de
pessoas.
Os resultados desse método já são evidentes. Em Yogyakarta, na Indonésia, um estudo mostrou que a presença da Wolbachia reduziu os casos de dengue em 77% e as hospitalizações em 86%. Já em Medellín, desde o início das liberações em 2015, houve uma queda de 89% nos casos de dengue.
O sucesso da iniciativa levou à sua expansão para 11 países,
incluindo Brasil, Colômbia, México, Indonésia, Sri Lanka, Vietnã, Austrália,
Fiji, Kiribati, Nova Caledônia e Vanuatu. Para atender à crescente demanda, o World
Mosquito Program precisa produzir centenas de milhões desses mosquitos, e a
fábrica de Medellín, a maior do mundo nesse setor, já produz mais de 30 milhões
por semana.
Historicamente, o combate aos mosquitos sempre se concentrou
na sua eliminação, por meio de inseticidas, mosquiteiros e armadilhas. Agora,
no entanto, a abordagem mudou: em vez de exterminá-los, o objetivo é criar
mosquitos modificados que ajudem a conter doenças.
O processo de produção na fábrica envolve a manutenção de
uma colônia primária de mosquitos Wolbachia, cujos descendentes geram
milhões de ovos. Estes, quando imersos em água, eclodem e se desenvolvem até a
fase adulta, sendo alimentados com farinha de peixe, açúcar e sangue — obtido
por meio de estoques vencidos de bancos de sangue.
Para distribuir os mosquitos pela cidade, a fábrica utiliza
motocicletas e até drones, garantindo uma ampla cobertura.
O projeto, que já foi considerado estranho por muitos, hoje
recebe apoio crescente de comunidades ao redor do mundo. A ideia de utilizar
mosquitos como aliados no combate a doenças, antes vista com ceticismo, agora
se consolida como uma solução inovadora e eficaz.
Além disso, a bactéria Wolbachia tem outra aplicação
promissora: está associada à prevenção da doença do verme do coração em
cães. Grandes empresas do setor farmacêutico e veterinário já enxergam
oportunidades nesse mercado, o que pode levar a novas soluções para a saúde
animal.
Assim, os "mosquitos do bem" continuam a se multiplicar, não como uma ameaça, mas como aliados na luta contra epidemias que afetam milhões de pessoas ao redor do mundo.